Deus Mutante, Multifacetado, Indeciso, Inconstante

March 7th, 2010

monkey

“primitive” – Denise Freitas.

Basta um resgate histórico para perceber que o Deus contemporâneo é um Deus multifacetado. Um Deus inseguro, que muda e redireciona seus comportamentos de maneira estupidificante.

Sebastien Faure lançou doze argumentos que negam a absurda existência de Deus. Em um deles, defende que “o ser eterno, ativo, necessário, não pode, em nenhum momento, ter estado inativo ou ter estado inútil”. A ideia é a de que antes de criar o mundo, Deus era inútil, preguiçoso e supérfluo. Em um determinado momento este Deus resolveu criar o universo – encontramos aí um traço forte de dupla personalidade.

Nosso Deus, inicialmente, tem duas personalidades: ocioso e criador.

A origem da fala humana data há algumas décadas. A linguagem suscitou a capacidade de pensar, e para explicar fenômenos naturais e existenciais foram criados Deuses ao longo da história. Seria exaustivo e dificílimo pesquisar sobre a origem do “agradecimento” como traço sócio-cultural. E foi a partir do surgimento dele, que o homem passou a agradecer a Deus – e ele, a partir desse momento, precisa e gosta dos agradecimentos dos subalternos.

Nosso Deus, agora, tem três personalidades: ocioso, criador e ditador.

O homem, como conhecemos hoje, tem 200.000 de anos na Terra e somente nos últimos milênios Deus decidiu inspirá-lo a escrever a bíblia. O feito foi uma forma disfarçada de burocratizar a fé e a moral humana – não entrarei na interessante questão da bíblia não servir como guia moral.

Nosso Deus, agora, tem quatro personalidades: ocioso, criador, ditador e burocrático.

Tanto os episódios bíblicos como históricos nos munem de novos padrões de comportamento do todo poderoso, possibilitando listar várias faces do criador.

Deus, realmente, é uma piada.

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Juízo Final de Michelangelo e Marten de Vos

March 3rd, 2010

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Juízo Final (1534~41) – 13,7 m x 12,2 m – Michelangelo Buonarroti.

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Juizo Final (1570) – 263 x 262 cm – Marten de Vos.

O evento cristão que separa a vida terrena do paraíso – ou do inferno – é o chamado Juízo Final (tendo na Divina Comédia de Dante sua primeira aparição na arte). Duas pinturas do século 16 ilustram o evento: o primeiro quadro – de Michelangelo – é renascentista com características maneiristas; o segundo – de Marten de Vos – é genuinamente maneirista.

Ambos são pinturas religiosas. Ambos quadros estão presos na crença do geocentrismo – quando observamos a presença dos elementos inferno, terra e céu. Ambos situaram no centro do cenário a figura de cristo como um “juiz”. Ambos tratam os anjos como comunicadores, portadores de uma trombeta (seria a língua que os anjos usariam para convocar as almas). Ambos mostram um lugar infestado de gente – como se o purgatório fosse compacto ou o mundo muito grande. Ambos retratam pessoas sóbrias – nem alegres, nem tristes -, que, penso, ser uma característica comum nas obras da época.

O segundo trabalha muito mais com os contrastes e, sem dúvida, Marten de Vos tem um domínio maior da perspectiva do que Michelangelo. O segundo, apesar de ser menor, é muito mais detalhado, com pinceladas muito mais precisas. O primeiro encontra-se na Capela Sistina – no Vaticano -, o segundo em algum museu por aí.

A maior semelhança entre os dois é a de retratarem um lugar que não existiu, não existe e não existirá.

A Arte de Atribuir Sentido

February 23rd, 2010

sentido

Viana prestigiou o nascimento de três das escolas de psicoterapia: Freud, Adler e Frankl. Este último é o fundador da logoterapia – terapia psicológica que pressupõe que o ser deseja “sentido” para existência.

Viktor Frankl defendia que achar o sentido existencial era “a última liberdade humana”. O psiquiatra escreveu o livro intitulado “A busca de sentido” onde narra sua passagem pelo campo de concentração nazista, quando dá início ao embasamento da sua terapia.

Mesmo com a emancipação sexual (Freud) e a valorização do Self (Adler), Frankl afirmou que o indivíduo ainda pode sentir um “vazio existencial”, que seria suprimido com a “plenitude do sentido”.

Uma das maneiras que encontrei para preencher as lacunas existenciais foi sofisticando a atribuição de sentido ao mundo – e não apenas à existência. Essa atribuição é uma forma de fixar significados que favoreçam o êxtase existencial. O prazeroso esforço é de fazer uma releitura do mundo, sendo um processo contínuo na medida em que os significados são extremamente voláteis e efêmeros – e as realidades cotidianas são diferentes.

Um escritor oferece o acesso de uma realidade imaginativa. Um pintor faz o mesmo combinando pinceladas que são traduzidas de uma forma muito mais subjetiva – gestalt, psicodinâmica das cores, reações, etc. Um músico o faz por timbres e harmonias que permite uma outra dimensão apreciativa. Enfim, a arte, quando não reproduz a realidade, é uma releitura íntima da realidade.

A façanha em tese é fugir do tédio existencial traduzindo a realidade com uma postura muito mais artística e menos racional. Essa ideia já foi presente na literatura (Pollyanna – Eleanor H. Porter) e no cinema (A Vida é Bela – 1997). No livro Pollyanna, por exemplo, a menina aprende a “brincadeira do contente”, que é uma arte de atribuir sentido às coisas ruins:

- Como é que se joga? – quis saber Nancy.- Não entendo muito de jogos.

Poliana sorriu e depois de um suspiro, disse:

- Tudo começou por causa de umas muletas que vieram na caxa de donativos para o missionário.

- Muletas? – admirou-se Nancy.

- Isso mesmo. Eu tinha pedido uma boneca a papai e, quando a caixa chegou, só havia um par de muletas para criança. Foi assim que começou.

- E onde é que está o jogo?

- Bem, o jogo se resume em encontrar alegria, sejá lá no que for – conluiu Poliana, séria. – Começamos com as muletinhas.

- E onde está a alegria – estranhou Nancy. – Encontrar muletas em lugar de bonecas…

- É isso aí – e a menina bateu palmas de contente. – No começo também não entendi.

Depois, com calma, papai me explicou tudo.

- Então, explique-me também.

- Fiquei alegre justamente porque não precisava de muletas – esclareceu Poliana. – Viu como é fácil?

Pode ser uma forma de forjar a realidade ou, talvez, fugir dela. Como também pode ser uma forma de negar a realidade em que o ser é escravo da carne, preso em uma angustiante pós-modernidade – onde é extremamente visível a insignificância humana para com o universo.

Há substâncias que densificam a imposição de sentido – nicotina, cafeína, thc, ácido lisérgico, etc. Mas são, obviamente, prescindíveis no esporte de atribuir sentido.

Atribuir, enfim, é mais do que inevitável: é necessário.

O que achas?


Nota sobre a imagem: fiquei em uma angustiante dúvida de que imagem usaria para ilustrar o texto. No fim, escolhi esta que, com ou sem sentido, fica por conta do leitor atribuir o sentido que quiser.

BBB e a Modernidade

February 17th, 2010

Sem pretensão de criticar o Reality Show – como previamente o leitor possa pensar -, apresento uma relação interessante entre os Reality Shows e a dinâmica social moderna.

No livro Vidas Desperdiçadas, o sociólogo Sigmund Bauman defende a ideia de que uma das consequências da modernidade é a produção de “refugo humano”, e esses indivíduos “redundantes” seriam um problema financeiro (roupa, comida, etc.) e sociais.

Veja um trecho de uma entrevista concedida por ele:

“O que o “reality show” apresenta é o destino e a exclusão é o destino inevitável. A questão não é “se”, mas “quem” e “quando”. As pessoas não são excluídas porque são más, mas porque outros demonstram ser mais espertos na arte de passar por cima dos outros. Todos são avisados de que não têm capacidade de permanecer porque existe uma cota de exclusão que precisa ser preenchida.”

É possível visualizar uma crise de existencial e de identidade na contemporaneidade, o que pode ser consequência desta busca por inclusão – ou busca pela não exclusão, como aponta Bauman.

O que achas?

Cético versus Contraditório

February 15th, 2010

contraditorio

A diferença entre o cético e o estupido é que o primeiro é proparoxítono. Outros dois proparoxítonos estupidificados é o agnóstico e o eclético. Quando Sócrates disse “tudo o que sei é que nada sei”, além de inspirar um álibi verbal para criminosos do mundo inteiro, criou uma das primeiras asneiras que ficou famosa.

Se dizer cético não é ser crítico, descolado, esclarecido, intelectual; é dizer que se vive sentado sobre um ponto de interrogação gigante, enquanto as pessoas vivem suas vidas do lado de fora do sopão de dúvidas.

O primeiro ponto é que, assim como seguir o “Carpe Diem”, é impossível ser cético. Isso porque, na escala de credulidade, o ponto da crença oscila entre o verdadeiro e o falso, nunca situado no neutro – como alegam ser possível, os céticos. Você sempre terá uma predileção para acreditar ou não em algo, mesmo que tenha vaga ou imprecisa consciência da inclinação.

Outro ponto é que duvidar é uma das coisas mais chatas que o homem faz, e piora quando a dúvida toma dimensões maiores do que deveria ocupar, tornando-se uma paranoia existencial.

Por fim, ao afirmar “eu duvido de tudo” veste-se uma postura de dúvida global. Ora, quem duvida de tudo, duvida da afirmação de que se deve duvidar de tudo, caindo em um paradoxo. Logo, é impossível, filosoficamente, afirmar tal coisa.

Não quero parecer rabugento e levantar a ideia de verdades absolutas. Entre ter a certeza e a dúvida, fico com as verdades provisórias, voláteis, efêmeras e mutantes. É interessantíssimo questionar as ideias, afinal, elas estão aí para serem contrariadas, refutadas, ajustadas, reguladas, rabiscadas, trucadas, sucumbidas, etc.

Posso ser ateu até o próximo segundo, brindar Marx até ano que vem, determinista até tempo indeterminado, consumista até a próxima crise, paranoico até o próximo minuto, posso, enfim, permutar as peças do meu ideário como quiser e quando quiser, sem xiitismo ou chatice, mesmo sendo muito contraditório.

Amanha posso até pensar o contrário…

Terceira Extensão do Self

February 13th, 2010

O termo Self (ou “si mesmo”, no português) é definido como o “conhecimento que o indivíduo tem sobre si próprio”. Para Jung, o Self é o centro da personalidade. Essa instância interna tem dois aspectos: a auto-imagem (o mesmo que auto-descrição), e a auto-estima (auto-avaliação).

Descartes dividiu o “eu” em corpóreo (ocupa espaço) e do pensamento (não ocupa espaço). Cruzando a ideia cartesiana com o conceito psicológico do Self, podemos definir duas extensões da auto-imagem no Self.

A primeira seria a da mente (pensamentos, princípios, gostos, opiniões, etc.) e a segunda a do corpo (estética, capacidade física de “agir” no mundo, dotes biológicos, etc.) – como define o teórico Martinho Henrique Verdi.

Na contemporaneidade a primeira é pouco valorizada – talvez por ser mais flexível. A supervalorização da segunda implica diretamente no aspecto auto-estima do Self. Podemos dizer que a maior parte das patologias psicológicas (depressão, ansiedade, etc.) tem origem na avaliação que o indivíduo faz sobre o corpo.

A questão que coloco é se o mundo da internet geraria uma terceira extensão do Self, uma nova e distinta forma do “eu” para “mim mesmo”, ou a rede seria só outra dimensão das duas extensões básicas.

A internet é uma outra natureza de armazenamento do “eu” – não sendo nem a mente, tampouco o corpo -, e isso traz a ideia de uma nova extensão.

Portanto, há três avaliações do “si mesmo” no século 21: eu como sujeito pensante, portador de um arsenal mental; eu como constituído por um corpo funcional; eu como sujeito digital.

Refutações, objeções e contra-exemplos são mais que bem vindos.

Formigueiro Comunista

February 9th, 2010

Meu antigo Blog voltou. Vou continuar postando aqui e, agora, – posts mais sarcásticos, inconsistentes e umas dosagens de jornalismo literário.

Feeds do Formigueiro Comunista.

Manifesto do Exagero

February 5th, 2010

exagero

“Tudo o que é exagerado faz mal” é a máxima entoada por equilibristas da patológica comunidade médica. Esse discurso alienante é só mais uma forma de controle do comportamento humano. Eles – a nobre sociedade – precisam delimitar o nosso “agir” e “pensar” no mundo, censurando comportamentos que vão contra os seus interesses.

A “avançada” medicina vem modelando a chamada “geração saúde”, quando espalha um exercito de argumentos científicos que criam resistência contra os diversos hábitos considerados prejudiciais.

E eis, aqui, o ponto: o que viria a ser algo prejudicial? Comportamentos que aproximam o indivíduo para a morte natural?! Prazeres que vão contra a religião?! Drogas alienantes que acidam a mente?!

Não somos livres – no sentido lírico e utópico do termo -, menos seremos enquanto presos na ignorância dos valores morais contemporâneos, sustentados por dogmas religiosos e rabugentismo de gerações passadas – geradas por tratamentos familiares que atrofiavam todo tipo de rebeldia e criatividade.

Um brinde, então, aos hábitos e exageros que levam o corpo ao êxtase profundo, um brinde aos prazeres que aliviam o tédio existencial.

Marquês de Sade, no século 16, alertou: “tudo é bom quando é excessivo.”

O Hipocrático “Carpe Diem”

January 29th, 2010

Um em cada quinze simpatiza com o “Carpe Diem” nas aulas colegiais sobre o Arcadismo. Em seguida, o casal de palavras latinas passa a invadir perfis de redes sociais, blogs, camisetas e até viram tatuagem. O problema é que essa onda de praticar o ideal latino é cega e surda, uma vez que o “Carpe Diem” é impraticável.

Traduzido de Horácio, a expressão significa ao pé da língua “colher o dia”, e tem a conotação de “aproveitar o momento”, sempre lembrando da brevidade da vida. A ideia é fazer útil o dia, não deixando escapar a consciência da fugacidade do tempo, tirando proveito de cada momento.

O que na teoria é perfeito, na prática fica impossível – como o que acontece com quase todas as teorias visionárias.

O poema de Horácio ensina que não se deve “confiar no amanha”. Logo, um seguidor íntegro do “Carpe Diem” convive sem o medo da morte no próximo instante, o que é dificílimo ao cérebro humano, uma vez que sustentamos inconscientemente uma vontade de viver. Mesmo um doente terminal, sabendo que vai morrer no tempo “x”, pode conviver com o medo de morrer por outro motivo qualquer, a qualquer momento.

Fora o argumento bio-filosófico, outra refutação da possibilidade de prática seria a estatística de telespectadores dos Reality Shows, fora outras coisas inúteis que boa parte dos que entoam o “Carpe Diem” se ocupam.

Antes de levantar a bandeira, as pessoas deveriam ver se suportam o peso.

Observação: certa vez um Sem Terra terminou o discurso com uma citação de um filósofo chamado Hipócrates. Nunca tinha ouvido sobre o tal, e o nome me lembrava hipocrisia. Então passei a batizar ludicamente toda filosofia inútil de hipocrática. No fim, era ignorância minha, pois o cara existiu e é considerado o “pai da medicina”.

Conservadorismo Nas Gerações

January 24th, 2010

conservadorismo

Um secular professor de língua portuguesa defendeu, certa vez, a escrita manual – lápis e papel, como nos tempos em que ele ainda não tinha dor nas costas. Segundo ele, desta forma as ideias são postas de forma mais coesa, e na escrita digital aconteceria o contrário, onde o processo de escrita oferece a liberdade para editar o texto várias vezes.

Meus escritos computadorizados seguem a lógica do velho. Lanço desordenadamente as ideias, e depois passo para o processo de concatená-las. Só não consigo entender qual o problema disto, pelo contrário, vejo apenas vantagens.

Aposto que, se não existissem estas parafernálias digitais, o professor sustentaria a ideia do uso das máquinas de escrever, alegando que a escrita manual permite apagar e, por conseguinte, corrompe o processo mental – usando da mesma lógica do papel versus computador.

É espantoso como a terceira idade advoga os rituais de sua época, seja pelo romantismo nostálgico dos tempos adolescentes ou, talvez, por uma caduquice rabugenta inerente a idade.

Um dia esta galera morre, e será nossa vez de policiar novas gerações com métodos arcaicos.

É a raça humana…

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    O Veículo [que isso?]

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    André HP - Impulsivo. Alcoólatra. Seletivo. Calculista. Cosmopolita. Marxista. Neurótico. Ufanista. Obcecado. Romântico. Estérico. Mórbido. Disléxico. Politicamente incorreto. E ex-assessor de impressa de Karl Marx.

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    Uma malta de desocupados, integrantes de uma seita tão secreta que desconhecem a existência dela.